Depois de quase cinco meses em vigor, a lei seca já puniu o milésimo motorista que ignorou a proibição de dirigir depois de beber. Em 137 dias, a fiscalização flagrou 1.050 condutores alcoolizados, uma média de 7,6 casos por dia. Do começo do ano até agora, o número supera a soma de todas as autuações dos últimos três anos. De 1º de janeiro até ontem, 1.939 pessoas foram reprovadas no teste do bafômetro. De 2005 a 2007, 1.630 motoristas haviam sido flagrados com o teor alcoólico superior ao permitido. E a Polícia Militar ampliou os dias em que vai fiscalizar o cumprimento da lei. A partir de agora, a operação Álcool Zero estará nas ruas também às quintas-feiras. Antes, a ação prioritária dos fiscais era de sexta a domingo.Com a intensificação das operações, as mortes nas ruas do Distrito Federal estão em queda. Outubro registrou o sexto mês consecutivo de redução — na comparação com o mesmo período de 2007—, com 26 casos. É também o intervalo com menor número de vítimas desde janeiro. A quantidade de acidentes fatais caiu de 34 em outubro do ano passado para 26 no mesmo mês deste ano. “Com certeza a lei pegou. A gente sente a mudança de cultura. No Plano Piloto, por exemplo, o movimento dos bares caiu porque está acabando a cultura de sair do trabalho, beber e ir para casa ao volante”, defendeu Jair Tedeschi, diretor-geral do Departamento de Trânsito (Detran).A justificativa de Tedeschi para o aumento dos flagrantes de condutores alcoolizados e queda na quantidade de mortes e de acidentes com morte é a fiscalização mais rígida e investimento na compra de bafômetros. Eram oito no início do ano. Agora, são 20, sendo 16 com o Detran e quatro cedidos para a PM. “Mudamos a estratégia de atuação. Em vez de mobilizar os agentes em um único ponto, aumentamos as abordagens em diferentes pontos”, explicou.PenalidadeO especialista em segurança de trânsito e professor da Universidade de Brasília David Duarte defende que a rigidez no cumprimento da lei seca deve continuar. “A desobediência à lei tem que gerar uma penalidade. Se não houver punição, a lei pode se tornar inócua”, explica o especialista. “A lei seca pegou, mas não se pode baixar a guarda agora. Se a fiscalização afrouxar, o número de mortes e de acidentes volta a subir”, acrescenta David Duarte.Se a fiscalização recrudesceu depois da lei seca, vai ficar ainda mais rígida a partir de agora. A Polícia Militar, que só fazia operações específicas para fiscalizar o cumprimento dessa legislação de sexta a domingo, incluiu as quintas-feiras no calendário de fiscalização. No dia 30 de outubro, os policiais militares já foram para as ruas. “Até o fim deste mês vamos começar a fazer nas quartas-feiras. E em dezembro as ações serão realizadas de terça a domingo”, explica o subcomandante do Batalhão de Trânsito da PM, major Alessandro Venturim.Mesmo com a greve do Detran, que já dura 16 dias, o trabalho de fiscalização continua. No último fim de semana, a Polícia Militar flagrou 18 motoristas dirigindo com teor alcoólico acima do permitido por lei. Três deles foram presos. O subcomandante do Batalhão de Trânsito acredita que a ampliação dos dias de operação vai reduzir ainda mais o número de mortes nas ruas do DF. “A chamada lei seca veio para ajudar os agentes e policiais militares, conferindo poder maior. O grande impacto psicológico dessa lei é a questão da tolerância zero. Antigamente, as pessoas ficavam calculando o quanto podiam beber. Hoje, a maioria não ingere nada antes de dirigir”, explica o major.FlagranteO artista plástico Carlos*, 29 anos, mora na Asa Norte e foi flagrado em uma blitz no Eixo Monumental em junho, nos primeiros dias da lei seca. Ele fez o teste do bafômetro depois de tomar quatro latas de cerveja em uma festa junina. O exame apontou 0,2 miligrama de álcool por litro de ar expelido dos pulmões. Hoje, Carlos se arrepende de ter se submetido ao teste. “Deveria ter me recusado a fazer. Acabei produzindo provas contra mim”, lembra o artista plástico. “Essa lei é muito rigorosa. Eu não estava embriagado quando os agentes me pararam. Depois disso, me sinto coagido a ficar em casa. Vivo praticamente em uma prisão domiciliar”, reclama.O especialista em trânsito e ex-diretor do Detran Luís Miúra elogia a rigidez na fiscalização do DF e a aceitação da sociedade. Mas ele lembra que o cerco aos motoristas que bebem e dirigem tem que continuar firme. “Brasília tem uma realidade muito diferente: aqui a lei pegou. Mas em municípios menores, ainda há dificuldade em implantar as ações, especialmente em ano eleitoral como 2008”, destaca Miúra. “Em muitos lugares, não há nem recursos para comprar equipamentos de bafômetros.”Para o especialista em engenharia de transportes e professor universitário em Florianópolis José Leles, se o governo tem a intenção de manter os efeitos da lei seca, deve equipar os órgãos de trânsito com bafômetros e determinar fiscalização intensa. “Caso contrário, em quatro ou cinco meses corremos o risco de perguntar sobre lei seca nas ruas e as pessoas não se lembrarem dela”, acredita. “Acho que a lei seca não pegou. Virou moda no primeiro momento, todo mundo falava. Teve um pico de obediência, mas o que se percebe agora é que as pessoas estão bebendo e dirigindo”, acredita José Leles de Souza.O setor de bares e restaurantes, que demitiu parte dos funcionários depois da lei seca, agora vê uma estabilização no movimento. “Houve uma queda forte de faturamento logo no princípio da fiscalização, mas agora o fluxo de clientes estabilizou”, garante o diretor da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes, Fernando Cabral. A queda média de faturamento, principalmente nos estabelecimentos que dependem da venda de bebida alcoólica, foi de 20% de junho até aqui.* Nome fictício a pedido do entrevistado
Fonte: Correio Braziliense
Fonte: Correio Braziliense